quinta-feira, 18 de junho de 2015

ZONA DE CONFORTO


ALTA RODA - Fernando Calmon

Peugeot 2008: bem acabado e com motor "torcudo", mas sem câmbio automático na versão de topo

Muitos talvez já tenham esquecido, mas entre 1986 (ano do anúncio) e 1995 (separação final de todos os ativos) o Brasil protagonizou na indústria automobilística uma tentativa de consolidação – jargão para processo de fusões e aquisições em determinado setor da economia. Naquele período as filiais da Volkswagen e da Ford anunciaram uma joint venture (associação com objetivos definidos) chamada Autolatina. Na época chegou-se a pensar que se tratava de uma experiência para fusão das duas empresas, negada por ambas.


O “casamento” não resistiu aos fatídicos sete anos. As operações começaram efetivamente em 1987 e a assinatura do “divórcio”, sacramentada em 1994. Financeiramente, a Autolatina funcionou ao gerar bons lucros, mas carros produzidos em conjunto não convenceram e as duas marcas perderam participação. A briga aconteceu quando a VW, que tinha 51% do consórcio, negou ceder o Gol de segunda geração para um modelo equivalente da Ford.

Nessa fase diminuiu o nível concorrencial e foi ruim para o consumidor no mercado nacional. O mau exemplo não impediu, porém, uma fusão germano-americana, quando a Daimler-Benz comprou a Chrysler/Dodge/Jeep em 1998 por US$ 38 bilhões. Em 2007, depois de constatar que não deu certo, os alemães venderam as três marcas por praticamente nada para um grupo investidor dos EUA.

Em perspectiva histórica, fusões e aquisições no setor automobilístico são inúmeras em um mesmo país, mas algumas não deram certo especialmente quando envolveram diferentes nacionalidades. Existem também alianças em diversos níveis. A mais próspera é a Renault-Nissan que mantém participações acionárias cruzadas e conseguiu avanços na economia de recursos.

A crise financeira de 2008/2009 pela quebra do banco Lehman Brothers revelou a fragilidade da indústria automobilística. O governo americano teve que assumir GM e Chrysler, embora por pouco tempo. A primeira voltou ao mercado de ações e a segunda foi entregue à Fiat para uma fusão posterior. Recentemente, a FCA (Fiat Chrysler Automobiles) também lançou ações na bolsa de valores de Nova York.

O inquieto Sergio Marchionne, presidente da FCA, sempre defendeu com razão que uma consolidação mais profunda é necessária para economizar bilhões de dólares e enfrentar os enormes desafios atuais e futuros em termos ambientais, de segurança veicular e de mobilidade. Semana passada sugeriu que sua empresa poderia se fundir com a GM, mas esta nem quis conversa, até pela experiência atribulada entre 2000 e 2005.

Para o grupo de mídia Automotive News, sediado em Detroit, há outras opções complicadas. Marcas orientais, como Mazda, Honda e Hyundai-Kia, não mostram interesse. Aparentemente restaria possível fusão com a PSA Peugeot Citroën que tem o governo francês e a fabricante estatal chinesa Dongfeng como sócios. Governos no meio, modelos de veículos em superposição e escala de produção insuficiente são fatos pouco animadores.

Enfim, algo paira no ar. A competição nunca foi tão dura e investimentos (inviáveis) parecem ter o céu como limite. Os consumidores estão na posição de esperar para ver. Se não temerosos, pelo menos falta uma zona de conforto.

RODA VIVA

VOLKSWAGEN oferece no Brasil o espelhamento de imagens do celular – Android (total) ou Apple (parcial) – no novo sistema multimídia do Fox 2016. É necessário um cabo, mas sem ambiente Wi-Fi, presente no novo Suzuki S-Cross. Este dispensa fios para conexão à internet e permite aplicativos populares, como Waze, diretamente na tela do painel central.

NAVEGADORES com redirecionamento automático para rotas menos congestionadas e mapas sempre atualizados são tendência irreversível. Se estiver embutido em multimídia a bordo, melhor. Pode haver interação e, assim, dúvidas de legislação de trânsito. Cercear o uso é impossível de controlar, pois telefones inteligentes presos ou não por suportes estão autorizados.

PEUGEOT 2008 tem atratividade no preço e bons equipamentos, mesmo faltando alguns que novos concorrentes oferecem. Freio de estacionamento, por exemplo, exige esforço. Suspensões, porém, muito bem acertadas. Volante pequeno permite ótima visão dos instrumentos. Versão de topo (motor turbo) não tem câmbio automático por ora, mas torque é tão grande que às vezes se esquece da alavanca de marchas.

FIM DE PRODUÇÃO do Celta (há estoques para três ou quatro meses de vendas) encerra carreira de 15 anos com poucas mudanças. Em 2016 será a vez do Classic, depois de 20 anos. Se Fiat não tirar de linha o Palio Fire no próximo ano, será único dos quatro grandes a conviver com modelos defasados. Está na hora de virar a página, termo do momento...

FALTA DE RESPEITO ao código de trânsito e de fiscalização indicam como boa parte dos motoristas chega a uma rotatória. Preferência lógica (e obrigatória) é de quem já está na rotatória e nunca daquele que acha ainda ter tempo para avançar. Certo é parar e dar passagem para quem vem da esquerda, ao contrário de esquinas comuns.

Fernando Calmon, engenheiro e jornalista especializado desde 1967, quando produziu e apresentou o programa Grand Prix, na TV Tupi (RJ e SP) até 1980. Foi diretor de redação da revista Auto Esporte (77/82 e 90/96), editor de Automóveis de O Cruzeiro (70/75) e Manchete (84/90). Produziu e apresentou o programa Primeira Fila (85/94) em cinco redes de TV. 

Sua coluna semanal sobre automóveis, Alta Roda, começou em 1999. É publicada em uma rede de mais de 100 jornais, revistas e sites. É correspondente para o Mercosul do site inglês just-auto. Além de palestrante, exerce consultoria em assuntos técnicos e de mercado na área automobilística e também em comunicação.

fernando@calmon.jor.br e www.twitter.com/fernandocalmon

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