segunda-feira, 22 de agosto de 2016

AUTOMÓVEL CUSTOMIZÁVEL ESTÁ MUITO MAIS PRÓXIMO DA REALIDADE DO QUE VOCÊ IMAGINA


PRÓXIMOS DESTINOS, Alberto Martins


Mercedes-Benz VRC Vario Concept 1995



Profetizado em filmes de ficção e experimentado em modelos conceito há décadas, o veículo que se adapta ao usuário está muito próximo de se tornar realidade. Ferramentas de configuração mecânica se juntam à eletrônica, à tecnologia de materiais e à realidade virtual para viabilizar o que parecia impossível.

Desde a ideia de aplicar o motor de combustão numa carroça o automóvel é uma clara expressão da evolução industrial em cada um de seus momentos. Assim como todo produto industrial, teve grande avanço após as guerras, serviu como meio de expressão, foi questionado quanto à sua eficiência e se adequou a processos, materiais, culturas. Ainda assim, dada sua complexidade produtiva e seus requisitos de durabilidade e segurança, sempre esteve restrito a algum uso primário específico, em demérito aos secundários.

A indústria tentou, ao longo destes 130 anos, desenvolver modelos com uso mais amplo, compartilhando plataformas e componentes, propondo morfologias que necessitassem de pequenas alterações para atender a diferentes necessidades, e estendendo o ciclo de vida de alguns modelos mudando sua segmentação de mercado. Artifícios que mais favoreciam à otimização de custos industriais do que às necessidades dos usuários.

Station-Wagons (ou peruas) e conversíveis também tentaram explorar este princípio: mais de um tipo de uso sobre o mesmo veículo. No caso das peruas, faziam as vezes de automóvel familiar e de carga, enquanto os conversíveis tinham em seu atrativo a possibilidade de abrir ou remover o teto, e retoma-lo assim que necessário. Alguns modelos-conceito tentaram ir além, propondo a alteração de suas dimensões para se adequar ao uso urbano (Renault Zoom, de 1992), troca de partes da carroceria para completa alteração do uso (Mercedes-Benz VRC, de 1994) ou até mesmo carroceria flexível (BMW GINA Light, 2008). 

Materiais tecnológicos e sistemas mais confiáveis

A evolução apresentada pelos conceitos tem causa clara e simples: materiais mais eficientes, leves e resistentes, sistemas mecânicos mais confiáveis e aporte eletrônico. A tecnologia vem permitindo materializar a ideia sem a necessidade e mecanizar seu uso. Na prática algumas soluções estão até consolidadas no mercado: já vimos monovolumes e crossovers substituírem as peruas oferecendo soluções semelhantes de volume de carga com mais identidade e praticidade, os conversíveis agora tem maior rigidez estrutural e capota rígida automatizada, e os sistemas de interface por tela LCD touch-screen (impensáveis há 20 anos) são essenciais e até mais baratos e precisos que dispositivos analógicos.

Compartilhamento em sentido amplo

Para frente, a demanda de mudança é comportamental. A escassez de recursos, o uso mais racional de mecanismos e equipamentos (energia) e a mudança da relação de posse na constituição de sociedade potencializam o que estes conceitos tentavam conjecturar. A aplicação da tecnologia em desenvolvimento para maximizar o uso do automóvel deixa de ser experimentação conceitual e passa a ser simplesmente a indústria ouvindo o mercado para sobreviver. O automóvel não pode significar, em nenhum sentido, a materialização do antigo retrógrado e arcaico, ou se tornará memória junto com a máquina de escrever e os disquetes.

Sistemas se compartilhamento de automóveis já são realidade, mas o modelo atual de automóvel (ainda residual do pós-guerra) não se adequa ao novo uso. A customização eletrônica que experimentamos há cerca de 10 anos com a chegada dos smartphones migra para o automóvel, permitindo que cada usuário tenha “o seu”, configurado em sua plataforma virtual e que esta configuração seja adotada pelo veículo utilizado naquele momento. Assim que outro usuário porta o mesmo veículo, este adquire as configurações novas, seja de clima, identificação ou uso, já pré-estabelecidas via plataforma ou configuradas naquele instante.

As mesmas ferramentas que permitem ao veículo ser plenamente customizável devem caminhar no sentido da economia de energia e menor impacto ambiental. Este automóvel é mais compartilhável ao aderir a mais valores por ser configurável, o que estende o ciclo de vida deste produto e o faz operar durante mais tempo em sua faixa ideal de funcionamento/temperatura, diluindo o impacto ambiental causado em sua produção e operação. A comunicação entre ferramentas como a internet-de-todas-as-coisas respalda ainda a integração destes veículos em movimento, agrupando-os como peixes em um cardume e permitindo que de movimentem compartilhando energia e economizando combustível.

Resta saber, depois de tanta alteração, se este veículo ainda se chamará automóvel.


PRÓXIMOS DESTINOS é uma coluna quinzenal. Propõe um olhar à frente, junto à nova economia, à hiperconectividade e aos novos arranjos sociais.

Alberto Martins é técnico em Mecânica, Designer de Produtos, MBA em Gestão de Projetos, entusiasta de história, sociedade e antigomobilismo, e apaixonado por novas tecnologias e novas possibilidades do dia a dia.



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